O ateu moderno
Paradoxo, futibeiros?
Paradoxo, sim, mas paradoxo dessa maluquice ocidental, a modernidade. Certo, ela "desencantou" o mundo, entronizou a Razão e divinizou a Ciência; mas, no mesmo movimento, abriu também a possibilidade de um pluralismo de crenças e uma explosão de esoterismos e novas religiões. Na civilização da racionalidade e da tecnologia esconde-se um subsolo de novos misticismos e novas religiosidades.
O bom adepto do ateísmo era o antigo ateu diante do paganismo romano ou do cristianismo fundamentalista da Idade Média; hoje, o ateu sofre de uma ambigüidade crônica: numa sociedade secularizada, sente a falta de um Absoluto! Se Deus está morto, em quem não acreditar? Diante do crepúsculo dos deuses, o ateu moderno não pode imitar Prometeu e gritar ao Olimpo: odeio todos os deuses! O ateu moderno não odeia a divindade; na verdade, simplesmente morre de medo da ausência de Deus... Procura milagres para atestar a volta da Presença e legitimar a sua descrença.
Acredito que, num tribunal público, diante do dedo acusador de Padre Marcelo, confessaria que tenho medo do escuro e de vampiros. Quando o padre concedesse os primeiros passos de sua dança aeróbica, não sabendo se rio ou se choro, atordoado pela tortura, mas permanecendo perplexo diante do neocatolicismo, confessaria que sou completamente supersticioso em futebol e que acredito em milagres e... maldições.
Sim, maldições! Até então, na verdade, só acreditava em maldições. Depois de tanto sofrimento, achava o Santa Cruz uma praga personificada, uma via-crúcis — aliás, somente um profundo ateu, profundamente moderno, poderia escolher um clube com Tal Nome. Então, no último sábado, descobri que podia ser ateu graças a Deus! Deu-se um milagre! Fiat Lux!
E como todo milagre tem uma estória, contarei aos futibeiros essa ocorrência extraordinária, que não se explica pelas leis da natureza.
O milagre eu conto como o milagre foi
Estava grudado no meu radinho de pilha — o apêndice do meu ouvido, quando não tem jogo no Arruda. Tinha "zapado" tudo que era canal na TV, e só se transmitiam partidas absolutamente insignificantes da primeira divisão; no máximo, um Bahia e Vila Nova, um jogo de classificados. Era incrível!, nenhuma rede de TV estava televisionando o arrebatador Sampaio Correia x Santa Cruz. Ninguém intuía o acontecimento extraordinário que estava por vir. Por isso, sem imagens, fiz o que se faz aqui fora do eixo: apelei para as orelhas!
No fundo, não senti falta da TV. Sou da última cepa que admira profundamente o radinho de pilha. No rádio, até jogo de Parreira torna-se emocionante. E acho um acinte um Raul ou um Mário Sérgio falarem com propriedade do meu clube. Prefiro o garganta de aço, Roberto Queiroz, e os comentários de Ralph de Carvalho, da Rádio Clube; ao ponto de desligar o som da TV e deixar o jogo rolar com a verborragia alegórica desses grandes narradores.
Mas, na hora do jogo, estava pessimista. Escutava por praxe. Descrente do mundo e dos desígnios dos céus. Tinha minhas razões; muitas razões, aliás. O Santa estava saindo de uma crise medonha. Mandara todos os medalhões do time pra fora, já que preferiam bronzear-se na praia de Boa Viagem a jogar futebol. O time agora só tinha pratas da casa. Estava com seu terceiro técnico, o grande formador de jogador, Nereu Pinheiro. Escapara do rebaixamento há pouco, quando arrancara um empate sofrido contra o São Caetano.
E a classificação era praticamente impossível, dependendo de vários milagres: o ABC precisava perder, em Natal, do Bahia; o CRB não podia, em Maceió, ganhar de forma alguma do quase rebaixado Remo, e o Santa precisava fazer o inacreditável: ganhar sua primeira partida fora de casa contra o Sampaio. Este último resultado é que era o mais inverossímil, pois a cobrinha tinha perdido todas as partidas fora, empatando apenas uma contra o Londrina! E o Sampaio vinha com tudo: quatro vitórias consecutivas, a última lá em Bragança, onde metera cinco no Bragantino!
O ABC já tinha perdido do Bahia; portanto, faltavam os outros dois resultados, justamente os mais difíceis. Comecei a escutar o jogo e, de cara, recebi uma ducha de pessimismo: o CRB fizera seu primeiro gol! Enquanto isso só escutava, digamos assim, "milagres":
- Agaaarra Nílson!!!
- Espaaalma Nílson!!!
- Desafoooga Nílson!!!
- Defeeende Nílson!!!
- Saaalva Nílson!!!
- Rebaaate Nílson!!!
Era o bombardeio do Sampaio e a performance do goleiro São Nílson. Quando acabou o primeiro tempo, estava surdo de tantos Nílsons nos tímpanos e profundamente cético. Um empate já era grande coisa. Pelo menos, não caiu no inferno da terceirona, racionalizei — o torcedor é o supra-sumo da racionalização. Suado de tanto nervosismo, meneei a cabeça e fui à varanda dar uma relaxada.
De repente, ao longe, singrando o horizonte, vi um cometa sobrevoando a Cidade do Recife. O cometa era encarnado, preto e branco, como cantava Jackson do Pandeiro! Era um sinal, um sinal! Então, escutei uma voz... era a Besta Fubana:
"- Quem tiver ouvido, oiça. Primeiro vai ter os sinais, depois a Terra emborca e vira o que tem em cima. Valente vai chorar, e frouxo se cagando será mato. A Quentura vai descer de Recife. Ela vai chegar se abanando e dando o peito a mamar aos precisados. Mas, também, os despossuídos de piedade aos pobres vão conhecer a peia que arde por mais de dez anos. A merda vai cobrir o shopping center Guararapes e se esparramar por Boa Viagem. Ela vai chegar alumiada e sombrejada, de uma vez só; e Recife vai ter noite no pingo do meio-dia; noite de galinha subir nos poleiros. Vem de noite e vai descer no telhado do Palácio do Campo das Princesas. Tem duas carreiras de peitos, cada uma com 73 bicos. Cada bico dará de mamar a 215 homens. Com a força de um peido Ela derruba todos os homens brabos dessa terra!" (inspirado do "Romance da Besta Fubana" do grande Luiz Berto)
Não entendi bem a mensagem, mas parecia coerente e fiquei confiante; afinal, fora um cometa tricolor, e a falação era da Besta Fubana. Começou o segundo tempo, e o Santa tinha voltado melhor (primeiro sinal). O Remo empatara (segundo sinal). Vamos, vamos lá! O Remo virou (terceiro sinal)! Não é possível, não é possível! A partida em Maceió acaba! É agora, tem que ser agora! Só depende de tu, Santa Cruz! 33 minutos... 34... 35... 36 minutos... Tinho cobra uma falta, Márcio Allan no rebote...
Viro um cabrito montanhês, e o locutor se esgana na rádio! É gol, é gol do Santa! Milagre, milagre! Obrigado Besta Fubana, Padim Cícero, São Teobaldo, o que for, obrigado! Não sei como agradecer. Querem a minha alma? Tomem, tomem, dou de graça!
O Sampaio parte pra cima; contra-ataque do Santa; Batata na frente do goleiro; vai, vai, passa esse miserável; faz, faz, faz! Aí, futibeiros, fui parar no teto! Estava enlouquecido de alegria. Não acreditava em mais nada; aliás, acreditava em tudo. Estava em estado catártico diante da maravilha absurda de um milagre. Dois a zero! Não é possível!
Mas milagre não ocorre assim tão facilmente. Tem que sofrer. Aos 40 minutos, o juiz marca um pênalti duvidoso. O Sampaio diminui. O juiz dá quatro minutos de desconto. Eita pressão danada do Sampaio! Nessa hora, confesso que vacilei. Será que era artimanha do Demo? O Santa faz dois a zero e, depois, cede o empate, deixando escapar a classificação? Nossa, era perversidade demais, nem o Diabo podia ser tão ruim!
Dois expulsos. Briga no campo. E o tempo se eternizando. E comecei a suar, a suar, a feder feito um bode (mau sinal). E estava num profundo silêncio, só ouvindo o locutor. O coração já nas amídalas. Então, o Sampaio lança o derradeiro ataque; o locutor eleva a voz, nitidamente nervoso; sinto o cheiro de perigo iminente, iminentíssimo; o atacante passa pelo zagueiro, penetra na grande área e, e... e chuta!
O tempo pára. Tudo fica em câmara lenta, como no Julgamento Final. Sinto minha alma penada. Vejo os tucanos no purgatório. Digo "oi". - E a questão social?, pergunto. Eles esboçam um sorriso meio triste. Os papagaios param de falar. Os cachorros de latir. Os pardais de voar. As galinhas de cacarejar. As flores de brotar. Eltsin de beber. Clinton diz pra Mônica: espera um pouco!
E, enfim, ouço a trovoada do locutor:
- Níiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiilson, MI - LA - GRO - SA - MENTE!!!!!
Cato meus cabelos no chão.
O jogo acaba...
Estou exausto; milagre cansa.
Coloco minhas caixas de som na varanda e meto pra Deus e Capiba escutar o Hino do Santa, em agradecimento. E também pra afugentar rubro-negro. Morrem de medo do terror do Nordeste...
Bem... e agora, futibeiros?
Agora é o São Caetano, líder e melhor time da segundona, clube sem torcedor e média de público um pouco acima de duas mil pessoas. Vamos ver o que vai fazer diante de 80 mil tricolores ensandecidos e acreditando, sim, acreditando piamente em...
Milagre!

1 Comments:
Grande Enildo, só agora consegui responder ao teu comentário. Problemas técnicos, disse Bosquímano.
Fantástico saber que a Besta reproduziu, parindo bestinhas pelo Brasil afora.
abração
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