A história da inverossímil falta de Andrade
AMIGOS DO BOSQUÍMANO
Pela milésima vez, Andrade errava uma falta, dando um chute espetacular para o cafundó-de-Judas. Para deixar qualquer um mais ainda exasperado, acontecera outra falta e, novamente, Andrade estava lá para batê-la. Convenhamos, a insistência desse rapaz me deprimia. Fulo da vida, vociferei para o Bosquímano:
- Ah, não, por que botam esse cara para bater falta?! Só por causa daquele gol contra o Bahia?! Aquilo foi assombração. Não acontece mais...
Houve um momento de silêncio esquisito. Bosquinho estava calado. Fato, cá entre nós, absolutamente extravagante. Nosso amigo não é sujeito que mede as palavras, principalmente quando está diante de um jogo do Santinha; ao contrário, exala-as, jorra-as de forma selvagem. É uma matraca atômica, como dizia meu avô para a minha avó nos momentos mais sublimes do casal. Olhei pro lado, para saber o que estava acontecendo, e notei que seus olhos estavam rútilos, até mesmo meio enviesados. Eram globos oculares vidrados que me fitavam de maneira asquerosa, bem abertos. Aquilo quase me paralisou, mas não foi o bastante para eu não esboçar uma débil tentativa de fuga, um salto para trás que não conseguiu quebrar o terror do olhar inominável e silencioso que me prendia. Tentei erguer a mão e tapar meus olhos, mas tinha os nervos tão abalados, que o braço não obedeceu à minha vontade. Bosquinho começou a murmurar alguma coisa, mas não escutei direito. Parecia baixo aramaico. Era um tom bíblico. Será que ele estava falando com aqueles porcos que Jesus, num gesto ecologicamente incorreto, mandara escafederem-se da falésia?! Foi então que o cabra falou com uma voz de todos os santos:
- O inevitável nunca acontece. É o inesperado sempre!
- Como é que é? - disse eu, sem entender nada.
- O inverossímil vai acontecer. O Imponderável de Almeida vai descer agora. Andrade vai acertar a falta.
Sorri. Impossível, pensei. Pobre Bosquinho, está ouvindo mentiras no Inferno. Foi quando senti todos os fantasmas demoníacos, que amaldiçoam o Bar do Ricardinho, uivarem por mim. E, naquele mesmo instante, desabou sobre a minha mente uma única e fugaz certeza de que o Bosquímano podia ter razão. O impossível parecia provável! Por que não?! Olhei a televisão e, hipnotizado, vi Andrade colocando a bola na forquilha de Rodolfo — bateu a falta feito Zico! Não foi preciso uma sensibilidade extrema à beleza para me fazer literalmente perder o fôlego ante a fantasia suntuosa do gol de Andrade. Somente os alvirrubros, os inimigos do óbvio, poderiam turvar a visão a tal ponto de perceberem uma obra de arte apenas pelo lado moral:
- não teve falta. Foi roubo! Gritava o Ancien Régime...
Não entendo os alvirrubros. Por que tanta enjicação? Ora, dificilmente, eles se importam com algum fato relevante da vida com a mesma intensidade e persistência que mostram por seus automóveis. Foi roubo?! Que seja, então! Mas isso verdadeiramente importa?! Não se pode pedir que a moral derrote a beleza, pois se o futebol fosse moralista não seria belo. Só mesmo reconhecendo o sublime, o infeliz alvirrubro, jogado a contragosto nesse alegre universo coral, conseguirá semear algumas rosas sobre os espinhos da vida. Não há como negar: o gol de Andrade foi um poema: uma hesitação entre o som e o sentido. Aquilo que não se pode falar, deve-se calar. Como se reconciliar com o mundo e se esquecer da insignificância do juiz? Como conseguir isso e ficar duvidando da ética de um gol — de uma obra de arte? Mesmo que os alvirrubros mostrassem que o gol de Andrade foi queimado moralmente na fogueira de Torquemada, a sua infinita beleza permaneceria completamente intacta.
Foi aí que Bosquinho, ainda falando com os porcos de Cristo, resumiu a parada:
- diante do gol de Andrade, a pior solidão é a companhia de um alvirrubro...
Tenho dito.


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