sexta-feira, dezembro 23, 2005

Conto de fadas natalino

Fiquei pensando no que escrever nesse final de ano, mais ainda numa época tão singela como o Natal. Confesso que minha inspiração está lá meio estranha, um tanto coprolálica e surreal, como vocês podem ter reparado ao ler a crônica “Fundação do mundo”. Creio que, tudo isso, tenha como causa a minha condição de professor universitário, esse ser absolutamente desprezível e sem função alguma na vida brasileira. Era inevitável que, dessa forma, tornasse-me um niilista ensandecido. Mas, ao escrever essa triste confissão, tento ao mesmo tempo combatê-la, evitando a descrença absoluta. Quero passar aos leitores e, principalmente, ao meu editor, o carrasco Bosquímano, que não agüenta mais tanta maluquice, uma imagem mais terna e doce.
Assim, tentei contornar a minha podridão espiritual escrevendo algo singelo... Um conto de fadas! Quero escrever um conto para embalar o sono dos filhinhos de mamães desse blog, sentindo-me útil socialmente e mostrando que é possível fazer outra coisa além de se bronzear, quando em greve. Bem, sem maiores delongas, leiam com ternura o conto de fadas e o contem para seus filhos, sobrinhos, netos ou qualquer pequerrucho que passar pela frente...

“Era uma vez uma princesa que morava num belo e magnífico castelo, no meio de um bosque espesso e inacessível. Ela vivia trancada no seu quarto por ordem do rei, seu pai, porque este tinha medo de que algum aventureiro lançasse mão. Mas ela já estava na idade de casar, e o próprio rei estava ficando velho, precisando de herdeiros e de dinheiro. Diante disso, ele editou uma nova lei: "o homem que conseguisse soltar a princesa do castelo teria a sua mão e herdaria o trono". Foram muitos os príncipes que vieram de todos os lugares para tentar a sorte, embora todos malograssem nos seus objetivos. Era triste escutar os lamentos chorosos da princesa em cada desfeita dos seus pretendentes. O rei continuava intransigente e não a liberava da sua prisão sequer um segundo.

Era uma coisa estranha o fato de que os valentes príncipes não conseguissem chegar nem mesmo perto do castelo ― mas é que os leitores não sabem das condições impostas pelo rei. Para se chegar lá, somente havia dois caminhos permitidos: o primeiro passava pelo bosque que era protegido pelo pavoroso bicho-galo. Monstro bissexual, macho e fêmea ao mesmo tempo, era alumiado e sombrejado de uma vez só. Com a força de um pum Ele/Ela derrubava invariavelmente quem ousassem desafiá-lo/a. Pior do que isso era o castigo da derrota. Por ordem do rei, todo aquele que fosse derrotado pelo bicho-galo era posicionado de quatro pés, calças arriadas, de tal sorte que era, imediatamente, possuído pelo monstro que penetrava os derrotados com seu membro longo e fino. Ele/Ela não errava uma estocada e parecia extrair muito prazer daquela atividade. Quem se desse ao trabalho de olhar, notaria um certo ar de riso malicioso em Seu Rosto. As sessões eram chamadas pelo rei de "enrabamento" e eram assistidas somente pela aristocracia - à plebe só restava boatar. O segundo caminho seguia por um profundo fosso, cheio de merda e baratas. Quem por ali passasse, teria que andar devagar, atolado de merda e barata até o pescoço. Assim mesmo, alguns corajosos tentaram, desistindo no meio do caminho por não suportarem tanto sacrifício, ainda mais porque a travessia tinha de ser feita na escuridão, em plena meia-noite.

Parece que a princesa morreu de desgosto, embora existam outras versões relatando que engravidou de um pajem, com o seu rebento tornando-se depois Bastardus I, para o constrangimento do seu pai”.

Bem, caso as crianças gostem dessa estória, não custa nada acrescentar alguns adendos. Assim, há indícios de que a saga dessa família real não terminou por aí, existindo outra história, um tanto constrangedora, que abalava os alicerces da realeza. Antes de iniciar a estória, aconselho o caro leitor a olhar nos olhinhos das crianças, dar uma risadinha meio histérica e aumentar o timbre da voz. Os pequerruchos precisam intuir que, o que vem por aí, faria corar até o Papai Noel.

“Havia nas redondezas do castelo do rei um besouro-bosta que, de hábito, alimentava-se do cocô da rainha. Isso não seria um grande problema, talvez apenas uma questão de ecologia, se não fosse a esquisitice desse besouro de só gostar de cocô fresco, precisando assim entrar nas tripas da rainha. O rei passava o tempo todo preocupado, tentando afugentar o besouro, o que raramente acontecia, entristecendo profundamente a rainha. O problema agravou-se a tal ponto que a nobre dama sempre ficava deitada, todas as manhãs, esperando o besouro e o final do seu curioso repasto na esperança de que lhe fosse dado passar o resto do dia mais tranqüila.

Um dia, o rei teve que viajar e, preocupado com o estado de sua esposa, mandou chamar um remendão para pregar uma tábua no traseiro da rainha, vedando a passagem preferida do besouro. Acontece que o besouro, inconformado por ter sido privado do seu alimento predileto, havia feito, com muita arte, um buraquinho na madeira, continuando, pois, tranqüilamente, com os seus velhos hábitos. Dizem que a rainha matou-se e o besouro, desesperado com o fim do seu repasto, jogou-se direto na boca de uma lagartixa, o que lhe trouxe uma morte atroz. Contudo, outras versões contam que, no fundo, a rainha gostava do besouro e, principalmente, do que lhe fazia, bem como ― pasme meu querido leitor, porque esta informação é surpreendente ― foi a própria rainha que fez o buraquinho na madeira! ”

Tal versão é bastante difundida entre o populacho, vale dizer. O que convenhamos não significa absolutamente nada, embora muitos pós-marxistas (Ler AMARAL, Aécio. Gilberto Freyre e o besouro bosta: a pernambucanidade desvelada. Recife: Joaquim Nabuco, 2004) tenham interpretado a figura simbólica do besouro como o povo entrando no forever da realeza.
Acho, sinceramente, que é forçar demais...

Boas festas!... e cuidado com o Besouro-Bosta!

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

sei da versão que, na verdade, era a própria princesa quem inventava os obstáculos a seus pretendentes e encorajava o pai em sua determinação férrea. contente e saciada estava, segundo essa mesma versão, com o referido mosquito...
geó.

11:04 AM  
Anonymous Anônimo said...

Essa versão acima, inclusive, fazia parte do folclore popular. Parece que, fazendo uma exegese da lenda, a princesa e a rainha fizeram conluio, e depois brigaram, pelo besouro bosta. O mesmo, dizem, dado a sua crescente importância, tornou-se um símbolo sexual - atualmente, uma entre cinco atrizes globais tem seu próprio bezouro bosta. Há, até mesmo, toda uma versão gay que afirma que, na verdade, quem utilizava o coleóptero era o... rei.

12:22 PM  

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