A TROCA
O roteiro:
No futuro, os humanos viajarão no tempo na forma de seres espirituais. Renan e Mirtes, por exemplo, gostam muito da nossa época, baixando aqui na terrinha e se incorporando em algumas pessoas. Freqüentemente, encontram-se num apê em Cabo Branco e batem longos papos sobre a vida e o universo. Nos colóquios, têm dois hospedeiros, Paulo e Bia, um charmoso e sensual casal de amigos, ainda que um tanto pudicos, cuja acolhida é sempre cordial e amiga.
Embora sejam apenas dois corpos, a conversa é a quatro, pois todos dialogam, física e mentalmente. Os papos são agradáveis, embora abstratos, do tipo sobre o papel da metafísica na repressão sexual dos paraibanos. Vale dizer que os dois hospedeiros nutrem, um pelo outro, desejos contidos e nunca percorreram juntos os caminhos impudentes de Sade. Renan sabe o que acontece com Paulo e Bia; Mirtes finge não saber.
A estória:
Mesmo na forma de espírito, Mirtes era tímida. Gostava dessa aventura de sair vagando de corpo em corpo, pois até camuflava um pouco o seu pudor. Mas, agora, a situação estava se complicando, visto que Bia (sua hospedeira) nutria um desejo desenfreado por Paulo (hospedeiro de Renan), que parecia, por sua vez, corresponder plenamente. Era-lhe estranho conversar, dessa forma, sobre metafísica e as confissões de Santo Agostinho com Renan/Paulo, sentindo as (suas) bochechas de Bia ruborizarem-se, um frisson percorrendo os (seus) nervos à flor da pele, o (seu) coração em pleno scherzo e (seus) lábios úmidos de tanto desejo. Ela não mais sabia se confundia o sentimento de Bia por Paulo com o que poderia estar sentindo por Renan. Mirtes era a própria ambigüidade: uma dialética em repouso.
Já Bia ria da sua hóspede, achava-a engraçada, embora lhe incomodasse a relutância de Mirtes em parar de discutir sobre a crise da literatura pernambucana e por que, diabos, o pessoal da Ufpe gostava tanto de Gilberto Freyre. Ela queria era a poesia e a filosofia na ação. Sua ânsia era premente. Um coito, mesmo que nas nuvens da Pernambucanidade.
- Que me arranquem o nariz, os lábios, as orelhas, o ventre, minhas pernas, mas não me deixem nesse estado de carência! — sofria, Bia.
Mirtes vacilava, apesar de se manter inflexível. Tentou discorrer sobre o "Gênero e a Deusa Gaia", assunto insosso por natureza, porém notou que, mesmo arrancando a cabeça da sua hospedeira, persistiria o anseio. O dualismo entre o corpo e a alma dominava a atmosfera. Mas o problema não era o Céu, e sim a Terra.
Renan era, há muito, cúmplice de Paulo, embora sempre adiasse a realização das necessidades amorosas deste último. O jovem implorava-lhe um momento de glória com Bia, mas ele era irredutível: "se, e somente se, nós quatro!", dizia para Paulo.
- Mas, como, se não sabemos se Mirtes quer ou não!?
- Esse é o meu, aliás, o nosso problema! Você não quer todo mundo junto? Só Bia pra você? Está com ciúmes? — disse Renan pra si mesmo ou, melhor, pra Paulo.
- Eu!? De forma alguma! Sou liberal, sou flexível! Além do mais Bia ama bem nós dois!
- Acredito que Mirtes também. Por isso, seremos nós quatro ou nada! — finalizava a discussão, Renan.
No fundo, sentia pena de Paulo. Tentava abordar o assunto indiretamente, mas Mirtes teimava em discutir sobre a filosofia das formas simbólicas de Ariano Suassuna, tergiversando o tempo todo. Tinha até pensado que esses assuntos metafísicos iriam atiçar o seu desejo, mas até agora não adiantara muito. Assim, estava já desistindo de um memorável coito a quatro e quase pedindo à sua parceira espiritual um pouco de compaixão para com Bia e Paulo.
Um belo dia, Mirtes discorria sobre um assunto absolutamente obscuro e de difícil compreensão. Era uma coisa de nunca mais se discutir, mesmo com o tanto de coisas passíveis de nunca mais serem discutidas que tinham lugar naquele colóquio espiritual. Falar sobre a possibilidade de aplicar a hermenêutica de Gadamer na sociologia compreensiva de Weber era de lascar, além de incompreensível. A vontade de bocejar era quase nietzschiana. Era uma espécie de ladainha que entortava o espinhaço. Quando, subitamente, ela parou de falar, hesitou um pouco e baixou os olhos.
- O que aconteceu, Mirtes? — disse Renan, apreensivo.
- Heh... eu tenho uma coisa pra te dizer, e quero simplesmente exprimi-la da melhor forma possível, entende?
- Sim, claro! Mas eu estava achando muito boa a sua explanação! Você realmente me convenceu de que hermenêutica e compreensão são os dois lados da mesma moeda! — disse, mentindo da forma mais agradável possível.
- Não... não é isso — disse Mirtes, dando um risinho nervoso.
- Ah, é? E o que é, então?
- Eu tive... heh ... uma pequena conversa com Bia... — Mirtes continuava a hesitar.
- e aí...
- ...e aí, eu acho injusto, da minha parte, persistir em negar a existência das suas necessidades físicas.
- O que isso quer dizer?
- Ela te deseja... quer dizer... Paulo. Ela quer transar com... Paulo. E eu vou deixar que isso aconteça. Qual é o meu direito de impedir a consumação de uma paixão?
- Louvado seja Deus! Louvadas sejam a poesia e a beleza! Louvada seja a compaixão feminina. Louvada toda a esperança desse mundo! (gritava a alma de Paulo)
Renan pegou gentilmente as mãos de Mirtes (?) e levantou o seu mento para olhá-la face a face. Suas bochechas estavam completamente rubras.
- E você, Mirtes? O que fará durante a diversão dos queridinhos?
Ela baixou os olhos novamente.
- Eu... bem, eu me retirarei, evidentemente. Por quê?
- Heh... nada, nada não, deixa pra lá! — disse Renan, gaguejando um pouco.
- Nossa, estou aliviada em ter resolvido esse problema, cheguei a pensar que...— Mirtes engasgou e engoliu em seco.
- Pensar em quê?
- Heh, nada, nada não, deixa pra lá! — Mirtes mudou de assunto:
- Quando faremos... heh... quando eles farão o...?
- Agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora (clamava Paulo).
- Calma, meu filho. Está nervoso?
- Quem... eu?
- Muito bem. Proponho então que seja agora — falou Renan, voltando-se para Bia/Mirtes:
- Nada como fazer agora o que você pode fazer depois.
Mirtes olhou para Paulo e viu no brilho dos seus olhos o desejo de Renan; aliás, a soma de dois desejos cúmplices, irrompendo qual cera derretida, contaminando com um cheiro agridoce o ambiente, inebriando a sua alma que, largada, estava caindo e caindo, cada vez mais, no maelström produzido pela volúpia de Bia. Teve certeza, nesse momento, que Renan a desejava e, tal idéia, deixou-a perturbada, sendo invadida por um medo todo especial, o da tentação.
- Nec plus ultra! — disse irônico Renan.
- Mais insuportável do que a infelicidade, talvez seja a felicidade. Vamos rápido para o quarto! — Foi na onda, Paulo.
- Mirtes — disse Bia — existe alguma coisa mais poderosa do que a vontade, este rio caudaloso que não espera enchente para ultrapassar as suas margens? A vontade é a superação dos nossos limites. Um ato de vontade é um sonho que se realiza em pleno dia!
As discussões filosóficas tinham dado algum resultado: Bia tinha enlouquecido de vez. Já Mirtes estava surda. A tentação carcomia os seus grilhões, tornando pó séculos de cultura paraibana. E, como que em uníssono com a situação, a atmosfera tornou-se densa e suada, tal qual o carnaval de Olinda. Dois corpos e quatro almas estavam, definitivamente, delirando. Todos, embriagados de sensualidade, começaram a cantarolar uma ópera* de um mito moderno.
PAULO
Ali, tu me darás a tua mão
Ali, tu me dirás sim.
Vê, não é muito longe.
Partamos, tesouro, partamos daqui.
MIRTES
Devo partir, devo ficar...
Meu coração acelera...
Vejo nele a felicidade?Ou o ardil?
RENAN
Vem, meu amor!
MIRTES
Tenho medo!
PAULO
Eu farei a tua felicidade!
BIA
Rápido... o quarto!
RENAN
Vem, oh! vem...
MIRTES
Vem...
PAULO E BIA
Venham, oh! venham, meus amigos!
Saboreemos as alegrias
de um amor inocente!
E, então...
(continua na próxima coluna... O que acontecerá? Vai ter bolero? Samba do crioulo doido?)
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* Don Giovanni, de Mozart e Lorenzo da Ponte
No futuro, os humanos viajarão no tempo na forma de seres espirituais. Renan e Mirtes, por exemplo, gostam muito da nossa época, baixando aqui na terrinha e se incorporando em algumas pessoas. Freqüentemente, encontram-se num apê em Cabo Branco e batem longos papos sobre a vida e o universo. Nos colóquios, têm dois hospedeiros, Paulo e Bia, um charmoso e sensual casal de amigos, ainda que um tanto pudicos, cuja acolhida é sempre cordial e amiga.
Embora sejam apenas dois corpos, a conversa é a quatro, pois todos dialogam, física e mentalmente. Os papos são agradáveis, embora abstratos, do tipo sobre o papel da metafísica na repressão sexual dos paraibanos. Vale dizer que os dois hospedeiros nutrem, um pelo outro, desejos contidos e nunca percorreram juntos os caminhos impudentes de Sade. Renan sabe o que acontece com Paulo e Bia; Mirtes finge não saber.
A estória:
Mesmo na forma de espírito, Mirtes era tímida. Gostava dessa aventura de sair vagando de corpo em corpo, pois até camuflava um pouco o seu pudor. Mas, agora, a situação estava se complicando, visto que Bia (sua hospedeira) nutria um desejo desenfreado por Paulo (hospedeiro de Renan), que parecia, por sua vez, corresponder plenamente. Era-lhe estranho conversar, dessa forma, sobre metafísica e as confissões de Santo Agostinho com Renan/Paulo, sentindo as (suas) bochechas de Bia ruborizarem-se, um frisson percorrendo os (seus) nervos à flor da pele, o (seu) coração em pleno scherzo e (seus) lábios úmidos de tanto desejo. Ela não mais sabia se confundia o sentimento de Bia por Paulo com o que poderia estar sentindo por Renan. Mirtes era a própria ambigüidade: uma dialética em repouso.
Já Bia ria da sua hóspede, achava-a engraçada, embora lhe incomodasse a relutância de Mirtes em parar de discutir sobre a crise da literatura pernambucana e por que, diabos, o pessoal da Ufpe gostava tanto de Gilberto Freyre. Ela queria era a poesia e a filosofia na ação. Sua ânsia era premente. Um coito, mesmo que nas nuvens da Pernambucanidade.
- Que me arranquem o nariz, os lábios, as orelhas, o ventre, minhas pernas, mas não me deixem nesse estado de carência! — sofria, Bia.
Mirtes vacilava, apesar de se manter inflexível. Tentou discorrer sobre o "Gênero e a Deusa Gaia", assunto insosso por natureza, porém notou que, mesmo arrancando a cabeça da sua hospedeira, persistiria o anseio. O dualismo entre o corpo e a alma dominava a atmosfera. Mas o problema não era o Céu, e sim a Terra.
Renan era, há muito, cúmplice de Paulo, embora sempre adiasse a realização das necessidades amorosas deste último. O jovem implorava-lhe um momento de glória com Bia, mas ele era irredutível: "se, e somente se, nós quatro!", dizia para Paulo.
- Mas, como, se não sabemos se Mirtes quer ou não!?
- Esse é o meu, aliás, o nosso problema! Você não quer todo mundo junto? Só Bia pra você? Está com ciúmes? — disse Renan pra si mesmo ou, melhor, pra Paulo.
- Eu!? De forma alguma! Sou liberal, sou flexível! Além do mais Bia ama bem nós dois!
- Acredito que Mirtes também. Por isso, seremos nós quatro ou nada! — finalizava a discussão, Renan.
No fundo, sentia pena de Paulo. Tentava abordar o assunto indiretamente, mas Mirtes teimava em discutir sobre a filosofia das formas simbólicas de Ariano Suassuna, tergiversando o tempo todo. Tinha até pensado que esses assuntos metafísicos iriam atiçar o seu desejo, mas até agora não adiantara muito. Assim, estava já desistindo de um memorável coito a quatro e quase pedindo à sua parceira espiritual um pouco de compaixão para com Bia e Paulo.
Um belo dia, Mirtes discorria sobre um assunto absolutamente obscuro e de difícil compreensão. Era uma coisa de nunca mais se discutir, mesmo com o tanto de coisas passíveis de nunca mais serem discutidas que tinham lugar naquele colóquio espiritual. Falar sobre a possibilidade de aplicar a hermenêutica de Gadamer na sociologia compreensiva de Weber era de lascar, além de incompreensível. A vontade de bocejar era quase nietzschiana. Era uma espécie de ladainha que entortava o espinhaço. Quando, subitamente, ela parou de falar, hesitou um pouco e baixou os olhos.
- O que aconteceu, Mirtes? — disse Renan, apreensivo.
- Heh... eu tenho uma coisa pra te dizer, e quero simplesmente exprimi-la da melhor forma possível, entende?
- Sim, claro! Mas eu estava achando muito boa a sua explanação! Você realmente me convenceu de que hermenêutica e compreensão são os dois lados da mesma moeda! — disse, mentindo da forma mais agradável possível.
- Não... não é isso — disse Mirtes, dando um risinho nervoso.
- Ah, é? E o que é, então?
- Eu tive... heh ... uma pequena conversa com Bia... — Mirtes continuava a hesitar.
- e aí...
- ...e aí, eu acho injusto, da minha parte, persistir em negar a existência das suas necessidades físicas.
- O que isso quer dizer?
- Ela te deseja... quer dizer... Paulo. Ela quer transar com... Paulo. E eu vou deixar que isso aconteça. Qual é o meu direito de impedir a consumação de uma paixão?
- Louvado seja Deus! Louvadas sejam a poesia e a beleza! Louvada seja a compaixão feminina. Louvada toda a esperança desse mundo! (gritava a alma de Paulo)
Renan pegou gentilmente as mãos de Mirtes (?) e levantou o seu mento para olhá-la face a face. Suas bochechas estavam completamente rubras.
- E você, Mirtes? O que fará durante a diversão dos queridinhos?
Ela baixou os olhos novamente.
- Eu... bem, eu me retirarei, evidentemente. Por quê?
- Heh... nada, nada não, deixa pra lá! — disse Renan, gaguejando um pouco.
- Nossa, estou aliviada em ter resolvido esse problema, cheguei a pensar que...— Mirtes engasgou e engoliu em seco.
- Pensar em quê?
- Heh, nada, nada não, deixa pra lá! — Mirtes mudou de assunto:
- Quando faremos... heh... quando eles farão o...?
- Agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora agora (clamava Paulo).
- Calma, meu filho. Está nervoso?
- Quem... eu?
- Muito bem. Proponho então que seja agora — falou Renan, voltando-se para Bia/Mirtes:
- Nada como fazer agora o que você pode fazer depois.
Mirtes olhou para Paulo e viu no brilho dos seus olhos o desejo de Renan; aliás, a soma de dois desejos cúmplices, irrompendo qual cera derretida, contaminando com um cheiro agridoce o ambiente, inebriando a sua alma que, largada, estava caindo e caindo, cada vez mais, no maelström produzido pela volúpia de Bia. Teve certeza, nesse momento, que Renan a desejava e, tal idéia, deixou-a perturbada, sendo invadida por um medo todo especial, o da tentação.
- Nec plus ultra! — disse irônico Renan.
- Mais insuportável do que a infelicidade, talvez seja a felicidade. Vamos rápido para o quarto! — Foi na onda, Paulo.
- Mirtes — disse Bia — existe alguma coisa mais poderosa do que a vontade, este rio caudaloso que não espera enchente para ultrapassar as suas margens? A vontade é a superação dos nossos limites. Um ato de vontade é um sonho que se realiza em pleno dia!
As discussões filosóficas tinham dado algum resultado: Bia tinha enlouquecido de vez. Já Mirtes estava surda. A tentação carcomia os seus grilhões, tornando pó séculos de cultura paraibana. E, como que em uníssono com a situação, a atmosfera tornou-se densa e suada, tal qual o carnaval de Olinda. Dois corpos e quatro almas estavam, definitivamente, delirando. Todos, embriagados de sensualidade, começaram a cantarolar uma ópera* de um mito moderno.
PAULO
Ali, tu me darás a tua mão
Ali, tu me dirás sim.
Vê, não é muito longe.
Partamos, tesouro, partamos daqui.
MIRTES
Devo partir, devo ficar...
Meu coração acelera...
Vejo nele a felicidade?Ou o ardil?
RENAN
Vem, meu amor!
MIRTES
Tenho medo!
PAULO
Eu farei a tua felicidade!
BIA
Rápido... o quarto!
RENAN
Vem, oh! vem...
MIRTES
Vem...
PAULO E BIA
Venham, oh! venham, meus amigos!
Saboreemos as alegrias
de um amor inocente!
E, então...
(continua na próxima coluna... O que acontecerá? Vai ter bolero? Samba do crioulo doido?)
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* Don Giovanni, de Mozart e Lorenzo da Ponte

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