quinta-feira, setembro 07, 2006

E, então...

Contudo (sempre existe um nessas estórias), um cheiro de maresia de Cabo Branco entrou pela janela e gelou as pulsões de Mirtes. Renan, vendo que o feitiço estava desaparecendo, aproximou-se decisivo de Mirtes e tacou-lhe um beijo...

e foi correspondido!

- Eu... não sei! Eu... não tenho certeza! Eu não me sinto capaz! — falou Mirtes, distanciando-se um pouco. Seus lábios tremiam.
- Esqueça teus recalques, Mirtes. Saia do mato e não o traga contigo. Escute as ondas galopantes do desejo e surfe nelas como uma boêmia. Não fale e não pense. Seja Sol e Carne! — disse inspirado e um tanto piegas, Renan.
- Vamos! — afirmou, com uma voz rouca, Mirtes.

Chegando ao quarto, Renan fechou a porta e a trancou com a chave. Renan/Paulo abraçaram e beijaram avidamente Mirtes/Bia, caindo todos juntos em câmara lenta na cama. As duas retribuíram o beijo com sofreguidão. Toda idéia de fuga tinha sumido da mente de Mirtes. Ela entrava agora numa correnteza e estava pronta para se deixar levar na cachoeira de pulsões que era o corpo de Bia. Os corpos estavam apertados, coxas contra coxas, num afã de se misturar, de virar um só e de se penetrar. Apertaram-se tanto que doeu. A física não permitia a fusão completa, mas era a vontade conjunta de quatro almas, e o aperto continuou.

Renan estava estupefato com os seus sentimentos. Para ele, a transa era um embate, um assalto ao castelo, levar um combate no qual ganhador e perdedor estavam claramente definidos. Ora, o que ele queria, nesse momento, era comunhão e entrega. E, acima de tudo, não magoar Mirtes, velar pelo seu prazer, incorporá-lo no seu... Renan era uma verdadeira pororoca passional*. Ele acariciou as costas de Mirtes/Bia e segurou sua bunda, levando-a a abrir ligeiramente as coxas, antes de ela ficar em califourchon ** e oscilar contra o seu membro duro feito um mandacaru em noite de São Bento.

- Oh, Deus! Não sei se vou agüentar mais tempo sem...
- Coragem, Paulo! Pense em outra coisa!
- Estou tentando. Já recitei a tábua de multiplicação, mas não foi de grande socorro!
- Ora, pense então em HH na posição de lótus!

Renan levou suas mãos aos ombros de Bia, tirando a blusa e desnudando seios pontudos, com os bicos parecendo olhinhos de guaiamum ***, e alvos como a areia de Intermares — claro, sem o lixo que a prefeitura... bem, deixa pra lá... Paulo pegou-os em suas mãos e os beijou delicadamente — seus sentidos eram preenchidos pelos gemidos de Mirtes. Seus lábios sedentos procuraram o ventre, enquanto suas mãos ajudavam outras a se desvencilhar da renda que cobria ainda a púbis. Então, ele embrenhou seu rosto entre as coxas, ao passo que mãos delicadas seguraram firme a sua nuca pressionando-a mais ainda contra o corpo. Mirtes, com um lindo riso de cristal, levantou Paulo pelos cabelos e disse: - tem uma coisa que quero fazer agora! — e derrubou Renan na cama. Bia tirou-lhe a camisa, o jeans e a cueca preta (?!) — parou um momento e reprimiu uma possível reflexão metafísica de Mirtes — e amparou nos seus lábios a potente ereção de Paulo.

- Oh, não agüento mais, vou explodir!
- Continue a contar, continue a contar!
- Duas vezes sessenta e quatro fazem cento e vinte oito, duas vezes cento e vinte oito fazem duzentos e cinqüenta e seis...

Era a vida em toda a sua complexidade e simplicidade. O mais puro egoísmo sendo o mais terno altruísmo para o outro. Amor e entrega.

- Ao diabo, Lula e o PT! Ainda existe esperança! — clamou Renan, completamente bolchevique.
- Venha... agora, não posso esperar... (Mirtes? Bia?)
- Duas vezes dois mil e quarenta e oito fazem quatro mil e oitenta e seis... (Renan? Paulo?)

Penetrou-se lentamente, devagar, cada milímetro sendo sentido e explorado. O movimento foi se tornando mais rápido, pulsante e olhos viris — de quem? — repararam embaixo a transformação do rosto feminino: a passagem da paixão serena e madura de Mirtes à exaltação flamboyant de Bia. Paulo perdeu o controle, e Renan sentiu na alma a detonação do amor, fumegante como lava e potente como a explosão de uma supernova, abarcando todo o horizonte cósmico. Mirtes gritou do rosto de Bia que clamou da alma de Mirtes. O gozo coletivo fundiu quatro espíritos e dois corpos numa ciranda em rodopio.

Ficaram abraçados um tempinho. Paulo e Renan estavam quase dormitando, quando Mirtes segurou o rosto de Paulo e, sapeca, olhou os seus olhos, dirigindo-se diretamente a Renan.

- Eu quero de novo!
- Mas... — disse Renan titubeante — isso leva algum tempo...
- Deus seja louvado! — exclamou a alma de Paulo.

Mirtes já não escutava Renan. Bia pousou suavemente a sua língua na glande de Paulo, fez alguns rodopios em torno e, golpe fatal, enlaçou-o totalmente dentro da boca úmida. Como por um milagre ocorreu imediatamente a ereção.

- Ah, disse Renan, a exuberância da juventude!
- Ahá, falou Paulo, e agora eu não preciso da tábua de multiplicação.
- Ótimo, nunca fui mesmo lá essas coisas em matemática.

Paulo lançou-se pra cima de Bia, que o afastou, dizendo:

- Eu quero ficar em cima!
- Incrível!
- Genial!

Após o engate, quando o coito estava num crescendo, Mirtes exclamou:

- Mude de lugar comigo, Renan, agora!
- Como...
- Venha para Bia!
- Mas... eu não tenho certeza de...
- Eu tenho certeza. Venha!

Ela baixou, pegou o rosto de Paulo e olhou os seus olhos. Renan sentiu uma brisa. Pensou que fosse Mirtes. E se foi. De repente, ele se viu, ou melhor, percebeu Paulo, que o olhava com um sorriso feminino.

- Renan? disse a voz de Paulo.
- Sim, eu consegui. Como é estranho! falou a voz de Bia.
- Oi, Renan.
- Bia, é você! Meu Deus, você é ótima...
- E você também, Renan, mas fique mais calmo e não tenha medo, por favor, senão vou perder o fio da meada.
- Vou tentar!

(Renan jamais soubera o que poderia sentir uma mulher: o consentimento, diante da intrusão de um corpo estrangeiro, como última dádiva de si mesma. Enquanto subia e descia aquele talo maravilhoso, durante o torno, parando ali e acolá e, assim, estimulando o (seu) clitóris no momento do embalo para baixo, sentiu a entrega como uma coisa distinta da sensação sexual, embora tão forte quanto. Para o homem o sexo era conquista e recompensa, para Renan, agora, era uma oferenda emocional de si mesmo à delícia de um outro; o seu prazer não era apenas físico, mas também ligado ao ato essencial de abandono de qualquer resistência pelo meio da confiança. Confiança, palavra chave. A espécie humana não tem cio, cuja finalidade, para os outros mamíferos, é permitir um tempo de consentimento natural para o sexo. Como a questão do consentimento é resolvida numa espécie que não tem cio? Renan compreendia porque o estupro é um crime tão abominável. Que uma coisa assim tão profunda seja arrancada à força e não consentida livremente é a negação literal do humano e a prova de que o homem possui uma mancha obscura de ódio, conspurcando o seu caráter. O prazer feminino tem um fundamento ético baseado na entrega e no altruísmo. Renan sabia, agora, que quem inventou o amor foi a mulher, além... da safadeza, é claro. E o prazer... Ele sentiu uma luz quente percorrendo "seu" corpo. Como homem, seu prazer se concentrava basicamente no pênis, espécie de alfa e ômega do prazer masculino; nesse momento, sentia totalmente, "seu" corpo inteiro transbordava de excitação — Renan continuava androcêntrico e seria recebido, é certo, com risinhos pelas feministas, mas também com certa condescendência)

- Renan — disse Mirtes pela boca de Paulo — eu sei agora por que os homens amam tanto o futebol!

Mirtes metia e Renan arqueava.

- Meu Deus, eu sei por que vocês arqueiam tanto! — pensou.

A cada metida, o atrito dos púbis produzia centelhas de libido que queimavam as peles. Através do amor, entregavam-se e por esse don recebiam à vontade. Renan ficou dormente, em lascívia, ao senti-lo entrandoentrandoentrando em Bia. Essa sensação rasgou todo o seu ser e contaminou todos os seus poros. Na hora da metida, Paulo e Mirtes investiram-se de um je ne sais quoi de comedor, perpassador, metedor-cafajeste que fez Renan (e Bia!) sentir-se cheia, pleine, acoplada, copulada, fêmea, mulher, animal, vaca. Ensandecida, Mirtes descreveu um arco viril no ar e envergou-se sobre Bia, talvez para poder fazer o melhor ângulo de metida...

Era perfeito,
mais-que-perfeito,
era absoluto.

O orgasmo navegava por ondas incontroláveis. O corpo de Bia agitava-se por sobressaltos e tentava enfiar dentro de si, até o impossível, o falo em pleno jorro de Paulo. Renan escutou um grito agudo e se percebeu rodeado de clarões brancos, sentindo-se desfalecido, beijando a morte e lhe dando adeus no retorno à vida. Ele se sentiu caindo no tórax de Paulo e o membro enfiado emagrecer e sair de fininho do (seu) corpo. Como uma pilha, Bia foi se descarregando.

- Cacetada! Nunca pensei que fosse tão bom! — disse extenuado, Renan

Passaram um bom tempo calados. O silêncio inundava de sentido a atmosfera. As palavras não cabiam nesse ambiente. Talvez, somente a poesia poderia tudo abranger. A polissemia reinava ali. Mas o tempo foi retomando novamente os seus direitos e as cores retornaram ao normal. O verdadeiro mistério do mundo era o visível e não o invisível. Todos sentiam, naquele momento, o doce desejo de durar.

- E, então, meu querido — falou Mirtes, irônica — é melhor ser mulher ou homem? — E caiu na gargalhada.

Renan abraçou Bia e a beijou ternamente. Não respondeu a pergunta e lhe ofereceu, como evasiva, o melhor sorriso de Paulo. Não estava preocupado com a resposta. Ela não tinha importância. Nunca teve.

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* Creio que, aqui, atingi o supremo nível poético.
** Blog é cultura. Palavra francesa de difícil tradução. Coxa de um lado, coxa de outro. Pense se sentando num cavalo e talvez o leitor entenda o que estou querendo dizer, ou não.
*** Com essa, entrarei na Academia de Letras da Paraíba.